Palavras...
Piano
As luzes, baixas
o aroma, suave
o paladar, perfeito.
O murmúrio das vozes,
devoradas
pelo piano
onde alguém toca num solo
a imortalidade…

Lá fora a noite
monumental,
perfeita!
Na água, o mundo
Iluminado,
dividido,
desigual.
E aqui,
deste lado do espelho
a sombra e o mate
da busca incessante de amor.
A loucura de Quixote,
tão presente
na espada que pende
das minhas mãos amargas
e feridas,
exaustas
e repletas de gigantes
esboçados
desejados
e nunca
nunca vencidos!...
Rendição

Surgiste num sopro de verão. Inesperadamente, senti-te perto, tão perto que me assustei. Sabias a mar e a magia. Ainda questionei...
Quando me estendeste a mão, tremi. Sorrias e dizias, vem. Recuei. Não! Vem, caminha e vem! Já não fugi.
Rendida juntei pedaços, atei farrapos e não plantei barreiras. Apenas fui, com uma alegria que não me lembrava existir. Verdadeira. Honesta. Urgente. Solar e Lunar, como me quiseste. Julguei-te o cálice perdido, meu graal... Mas veio a chuva. E o frio.
Tanto frio!
De Alma descalça e despida de cautela, tropecei. Tombei. Esfarrapei-me em algo que colocaste dentro de mim. Olhei, tentando perceber onde estava o vazio. Chorei ao perceber que estava nas tuas mãos. Pedi-te ajuda e tu sorriste. Perguntei-te por nós e tu mentiste. Hoje sei que não existes. Sei porque é que o tempo não chegou.
Teria sido perfeito se fosses mais que uma ilusão.
Ironia
Esboço
não sei o teu timbre
a tua voz
o teu cheiro
Desconheço o teu toque
o teu gosto.
Desenho-te
e dou-te "vida" na minha imaginação
Não sei se te pinte antes que te esbatas
Ou se te apague antes que te transformes
Numa cruel tela de mil cores
.
.
Recusa
.
.
(Foto de Rosário Marques).
.
que não me abre as mãos
nem me beija as feridas
que as minhas unhas teceram
na fúria da tua ausência
Recuso-me desejar-te
na frivolidade dos passos
que não reconheço
e que não me devolvem
o gosto acre do sangue
que de ti guardo no meu silêncio
ou o cheiro que se colou na pele e na carne
em que louco te saciaste
Meu amor, se eu não soubesse
que me perdi no teu mundo
Na hora em que apagaste todas as luzes
Talvez ainda hoje me alimentasse
dos dias e das noites vestidos de fogo e calor
centelhas incertas de luz
isentas de amor
Recuso-me procurar-te no vazio de nós
Inventa-me
a madrugada dorme
ao contrário das emoções, despertas pela contradição
do que fui e ainda sou, sem ser
do que quero sem entender
dos sonhos ilegíveis, impossíveis de verbalizar
e até de compreender.
Caprichosas estão as emoções
que teimam em permanecer
e arriscar com elas num jogo de sentires
que amordaça e simultaneamente liberta
como o amor
e a ira
Nelas vou pedir-te que me inventes esta noite
lentamente, que me desates dos mil pedaços
perdidos por aí, sem chão
Que apagues num abraço, os traços que marcam
sob os meus olhos, o alvorecer
E que me beijes até me faltar o mundo.
Deita-me
na maciez do teu leito de linho
ensina-me o caminho sagrado do teu universo
e entrega-me num sopro divino
o meu verdadeiro poema

Não me perguntes quem sou
Diz-me só que te pertenço
Vento

Chega-me ao rosto a brisa de verão, rebelde
gostaria que viesse como um cântico sacro
leve, breve e perfumado.
Mas o vento é como o pensamento, selvagem.
Não me ouve. Não quer saber. Desafia-me. Faz-se rei.
Arde em desejos seus como bolas de sabão sem senhor
embebeda-me o sangue em desejos de amor
devora a Paz da idade do desencanto
agita os dias de água calma e incolor
inquieta as noites despidas das vestes de seiva e de pranto.
Deveriam as flores nascer por trás dos muros erguidos com suor pela mão dos homens?
Não! Não nos dias em que o sol nasce do lado certo da vida.
Mas até os muros caiem ao passar deste cântico envenenado
e os sinos dobram ao convite do seu pecado.
Vai-te brisa vai-te vento
vai-te na minha frente, voa sem fim
não deixes que a minha alma escute as palavras mornas do tempo sem lei
decide-me os passos, guia-me o tempo
que nada mais sei que confundir-me nas tuas preces.
Inexistências
. 
.
Na vida que não existe
onde imoderado é o ser
as rosas não têm
nem mesmo as brancas
perfume ou vigor
ou sequer ganham o chão
Porém
Tu não queres que seja assim
e não ouves
o que digo que sei
sem saber de nada
Queres beber
o sabor de todas as cores
e tocar todos os mundos
Ficas
Sem avisar que vens
E abraças com doçura
o silêncio que me cala
cercando de infinito
a terra faminta de céu
E eu
que não quero querer-te
que tão-pouco quero ver
morro de medo de perder-te
sem ousar te conhecer.
.
.
Circular dos astros

Que importa meu amor
o vazio dos sonhos
se toda a ternura
nos oferecemos um dia
num pranto de amor e paixão
quando eternizamos , em feitiço
corpo, alma e coração?
Ponto final, parágrafo.
Respondi ao chamamento da fome
e da saudade dos dias felizes
Mergulho hoje
no abraço desconhecido
do amanhã
Futuro à deriva
em pequenos passos
de audácia
e fé
O reabrir da janela
será ar
Verão
ocasião
e recomeço
A coragem
dilui a amargura
das décadas que ficam
no rodar da chave
pela ultima vez
Abraços fortes
de quem vai
mas que na verdade
emoções
Caiem as lágrimas
e a grade que desce
como pano de palco
em fim de acto
hoje tem sabor a medo
e a liberdade
Quebra-se assim
o cómodo círculo
real
e o sonho
O futuro vai ter que crescer
nas minhas mãos
.
Recomeçar
"Recomeça...
Se puderes,
E os passos que deres,
Nesse caminho duro do futuro,
Dá-os em liberdade
Enquanto não alcances,
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade."
Miguel Torga
Culto
Evoco sorrisos,
resguardo lágrimas
e invento o silêncio das palavras.
Ainda te percebo
na integridade dos gestos
que desmonto,
e martirizo-me
nos sinais que magoam
e afastam.
Firo-me
nos estilhaços,
mil pedaços
do presente
já de si tão frágil.
E o saber fica a marinar
em lume brando.
A dúvida
do tempo certo
não cede, não morre nem nasce
nunca.
Resta-me o amor
de uma noite sem luar
e o desejo
de um abraço infinito
que só tu me podes dar.
Deserto
.
Espera
não vás ainda
que culpa temos se não nascem as palavras?
Nunca venceremos o deserto
os silêncios gélidos
ferem de morte os oásis por nascer
mas não vás agora
senta-te ao meu lado outro instante
embalemo-nos no silêncio cúmplice
de estranhos que sempre seremos
Exílio
Nasceste quimera
inesperada e irracional.
Depois foste coragem
assalto, agonia
e peso morto da saudade.
Foste hesitação e incerteza,
cansaço… e olhos mate.
Solidão. Medo.
E sonho…
(de todos o mais assustador)
Insanamente
palmilhei quilómetros
ao compasso da luz.
Cegamente
saltei portagens
de espaço e de tempo,
ultrapassei fronteiras
de ser e de ter
e rasei a loucura
quando te doei a alma
e consumi o paraíso.
Consumi tudo.
E consumi-me também
num qualquer fragmento de vida
onde ficaste.
Então descobri
que nada é eterno,
e eu
sou arauto do amor...

Exilei de mim a dor.
Naúfrágio
Embalo-me em sorrisos
de lágrimas nascidos
num pranto estéril, amargo, insano
imoral, talvez! 
Semeio aromas, sabores e sentires…
de tudo.
Ofereco-te o fogo sagaz
da nascente do riso
na pele morena
na carne viva
onde a cada dia me sentes
e me tens.
Dou-me
ao solo fértil
ao orvalho
e ao berço do ser
ainda e sempre
cru.
Alimento-te assim a vida
uma e outra vez
mascarando a derrota
de ti e de mim
náufragos de sentir perpétuo
prisioneiros do oco
e do vazio
sem água
e sem vida
nas palmas das mãos.
Amordaçada

Chegou-me um olhar
adiado no tempo
e o pêndulo parou.
A distância de perguntas e respostas
e palavras recusadas em silêncios
desenharam o que não soubeste mentir
Adivinhada foi a semente dos brilhos.
Eu nego
E tu não digas nada
Faz-te de louco também
Calemos as promessas
em olhos rasos de água
Matemos desejos
em viagens que o corpo não faz
Asseguremos que o instante de viver
é miragem
amordaçada
num oásis sem dádiva e sem destino.
Nada tenho no teu tempo.
É momento de largada
Sigo só, cega
no estéril deserto
de tudo e nada sermos
mexe-se o pêndulo
esconde-se o brilho
avança o tempo.









