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Palavras...



Olho a folha em branco e nela me foco procurando as palavras, fieis amigas de tantas horas, que há muito abandonei. Fazem-me falta agora. Talvez nem voltem, talvez não as mereça… Mas elas mordem-me os sentidos gritando-se vivas mas teimosamente ausentes. Aos poucos, letra a letra, o branco vai-se pintando de pequenas migalhas de um todo grande demais para ser dito. Já não sei se perdi a coragem, se sou eu que não as quero ou elas que não me querem a mim. Talvez já não me reconheçam. Os dedos são os mesmos mas talvez eu já não seja. Vivo sempre 7 vidas numa vida… elas perderam-me o Norte, deixaram de saber de mim. Não as posso censurar. Fiz com elas o que fiz com quase tudo: Fugi, escondi-me, ausentei-me. Ceguei e emudeci. Quase Morri. Não sei se foi uma escolha. Talvez uma imposição. As folhas brancas pintadas de mim sempre falaram demais, nunca soube travar os verbos. Cortei o mal pela raiz, provavelmente fundo demais. E talvez o branco tenha permanecido alvo tanto tempo que se esqueceu da vida e do sangue, do amor e da dor… permitindo-nos que a cada dia ficássemos mais sós. Ele e eu. O branco e o preto. Numa paz podre, fingida, sofrida. Engolida.


Revejo a folha, pintada de nada. Ainda estou só.  

Piano



(Ah!...o piano…)


As luzes, baixas

o aroma, suave

o paladar, perfeito.

O murmúrio das vozes,

devoradas

pelo piano

onde alguém toca num solo

a imortalidade…



Lá fora a noite

monumental,

perfeita!

Na água, o mundo

Iluminado,

dividido,

desigual.


E aqui,

deste lado do espelho

a sombra e o mate

da busca incessante de amor.


A loucura de Quixote,

tão presente

na espada que pende

das minhas mãos amargas

e feridas,

exaustas

e repletas de gigantes

esboçados

desejados

e nunca

nunca vencidos!...


Rendição






Surgiste num sopro de verão. Inesperadamente, senti-te perto, tão perto que me assustei. Sabias a mar e a magia. Ainda questionei...

Quando me estendeste a mão, tremi. Sorrias e dizias, vem. Recuei. Não! Vem, caminha e vem! Já não fugi.

Rendida juntei pedaços, atei farrapos e não plantei barreiras. Apenas fui, com uma alegria que não me lembrava existir. Verdadeira. Honesta. Urgente. Solar e Lunar, como me quiseste. Julguei-te o cálice perdido, meu graal... Mas veio a chuva. E o frio.

Tanto frio!

De Alma descalça e despida de cautela, tropecei. Tombei. Esfarrapei-me em algo que colocaste dentro de mim. Olhei, tentando perceber onde estava o vazio. Chorei ao perceber que estava nas tuas mãos. Pedi-te ajuda e tu sorriste. Perguntei-te por nós e tu mentiste. Hoje sei que não existes. Sei porque é que o tempo não chegou.

Teria sido perfeito se fosses mais que uma ilusão.


Já fui tarde …

.
.

Perdoa-me

mas não fui a tempo

A chuva já escorria sobre os meus ombros

quando me avisaste

que não haveria verão

para me enxugar os cabelos…

Um só momento e fez-se tarde

para apagar de mim o conforto

do teu abraço…





.

.Perdoa-me meu amor

pois já não há tempo

de apagar de mim os teus passos


Ironia

.
.

.
.

Sorrio ao lembrar que um dia quase me pediste que não te deixasse acordar…

É irónico que hoje seja eu a sentir a saudade de adormecer no teu sorriso.


...
.

Esboço

Semeias-me a dúvida enquanto me seduzes a dar largas à imaginação. Quem dera não perceber o quanto os sentidos fazem falta neste ante-projecto a carvão


não sei o teu timbre

a tua voz

o teu cheiro

Desconheço o teu toque

o teu gosto.

Desenho-te

e dou-te "vida" na minha imaginação


Não sei se te pinte antes que te esbatas

Ou se te apague antes que te transformes

Numa cruel tela de mil cores

.

.

Recusa

.
.

.
.
.

Recuso-me procurar-te no vazio
que não me abre as mãos
nem me beija as feridas
que as minhas unhas teceram
na fúria da tua ausência

Recuso-me desejar-te
na frivolidade dos passos
que não reconheço
e que não me devolvem
o gosto acre do sangue
que de ti guardo no meu silêncio
ou o cheiro que se colou na pele e na carne
em que louco te saciaste

Meu amor, se eu não soubesse
que me perdi no teu mundo
Na hora em que apagaste todas as luzes
Talvez ainda hoje me alimentasse
dos dias e das noites vestidos de fogo e calor
centelhas incertas de luz
isentas de amor

Recuso-me procurar-te no vazio de nós
.
.
.

Inventa-me


Foi uma noite longa
a madrugada dorme
ao contrário das emoções, despertas pela contradição
do que fui e ainda sou, sem ser
do que quero sem entender
dos sonhos ilegíveis, impossíveis de verbalizar
e até de compreender.
Caprichosas estão as emoções
tão incontroláveis
que ainda vou vacilar um pouco nas palavras,
que teimam em permanecer
e arriscar com elas num jogo de sentires
que amordaça e simultaneamente liberta
como o amor
e a ira

Nelas vou pedir-te que me inventes esta noite
lentamente, que me desates dos mil pedaços
perdidos por aí, sem chão
Que apagues num abraço, os traços que marcam
sob os meus olhos, o alvorecer
E que me beijes até me faltar o mundo.
Deita-me
na maciez do teu leito de linho
ensina-me o caminho sagrado do teu universo
e entrega-me num sopro divino
o meu verdadeiro poema






Não me perguntes quem sou
Diz-me só que te pertenço




Vento



Chega-me ao rosto a brisa de verão, rebelde
gostaria que viesse como um cântico sacro
leve, breve e perfumado.
Mas o vento é como o pensamento, selvagem.
Não me ouve. Não quer saber. Desafia-me. Faz-se rei.
Arde em desejos seus como bolas de sabão sem senhor
embebeda-me o sangue em desejos de amor
devora a Paz da idade do desencanto
agita os dias de água calma e incolor
inquieta as noites despidas das vestes de seiva e de pranto.


Deveriam as flores nascer por trás dos muros erguidos com suor pela mão dos homens?
Não! Não nos dias em que o sol nasce do lado certo da vida.
Mas até os muros caiem ao passar deste cântico envenenado
e os sinos dobram ao convite do seu pecado.


Vai-te brisa vai-te vento
vai-te na minha frente, voa sem fim
não deixes que a minha alma escute as palavras mornas do tempo sem lei
decide-me os passos
, guia-me o tempo
que nada mais sei que confundir-me nas tuas preces.


Inexistências

.

.
Na vida que não existe
onde imoderado é o ser
as rosas não têm
nem mesmo as brancas
perfume ou vigor
ou sequer ganham o chão

Porém

Tu não queres que seja assim
e não ouves
o que digo que sei
sem saber de nada
Queres beber
o sabor de todas as cores
e tocar todos os mundos

Ficas

Sem avisar que vens

E abraças com doçura
o silêncio que me cala
cercando de infinito
a terra faminta de céu

E eu

que não quero querer-te
que tão-pouco quero ver
morro de medo de perder-te
sem ousar te conhecer.





.
.

Ausência

.
.

.
.


Saberás tu, algum dia, as vezes que o meu pensamento em ti se perde?
.
.

Circular dos astros



Que importa meu amor


o vazio dos sonhos

se toda a ternura

nos oferecemos um diaAdicionar imagem

num pranto de amor e paixão

quando eternizamos , em feitiço

corpo, alma e coração?

Ponto final, parágrafo.

Respondi ao chamamento da fome
e da saudade dos dias felizes
Mergulho hoje
no abraço desconhecido
do amanhã
Futuro à deriva
em pequenos passos
de audácia
e fé

O reabrir da janela
será ar
Verão
ocasião
e recomeço

A coragem
dilui a amargura
das décadas que ficam
no rodar da chave
pela ultima vez
Abraços fortes
de quem vai
mas que na verdade

não chega a partir
Sentires que nunca esquecem
emoções
que valem a vida

Caiem as lágrimas
e a grade que desce
como pano de palco
em fim de acto
hoje tem sabor a medo
e a liberdade

Quebra-se assim
o cómodo círculo
real
e o sonho
ganha asas...


O futuro vai ter que crescer
(outra vez)
nas minhas mãos



.

Recomeçar

"Recomeça...

Se puderes,

E os passos que deres,

Nesse caminho duro do futuro,

Dá-os em liberdade

Enquanto não alcances,

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade."

Miguel Torga

Culto


Cultivo-te no beiral do abismo
do fim de tarde
onde anoitece o azul
e o verde da razão.

Evoco sorrisos,
resguardo lágrimas
e invento o silêncio das palavras.





Ainda te percebo
na integridade dos gestos
que desmonto,
e martirizo-me
nos sinais que magoam
e afastam.
Firo-me
nos estilhaços,
mil pedaços
do presente
já de si tão frágil.




E o saber fica a marinar
em lume brando.
A dúvida
do tempo certo
não cede, não morre nem nasce
nunca.






Resta-me o amor

pelas estrelas
de uma noite sem luar
e o desejo
de um abraço infinito
que só tu me podes dar.


Negação

.
.

.

Nego-te
o tempo
uma e outra vez.

Nego-te
não por não querer-te
mas porque te temo.
Porque também eu receio
que a liberdade dos teus braços
se torne o meu vicio fatal.

Deserto

.


Espera
não vás ainda
que culpa temos se não nascem as palavras?
Nunca venceremos o deserto
os silêncios gélidos
ferem de morte os oásis por nascer
mas não vás agora
senta-te ao meu lado outro instante
embalemo-nos no silêncio cúmplice
de estranhos que sempre seremos

Fascinas-me.



Nunca o saberás
nos cem anos de solidão onde te perdes
te encontras e te divides
as palavras
que não digo
serão sempre tuas.

Exílio

Nasceste quimera
inesperada e irracional.


Depois foste coragem
assalto, agonia
e peso morto da saudade.


Foste hesitação e incerteza,
cansaço… e olhos mate.
Solidão. Medo.
E sonho…
(de todos o mais assustador)

Insanamente
palmilhei quilómetros
ao compasso da luz.
Cegamente
saltei portagens
de espaço e de tempo,
ultrapassei fronteiras
de ser e de ter
e rasei a loucura
quando te doei a alma
e consumi o paraíso.


Consumi tudo.


E consumi-me também
num qualquer fragmento de vida
onde ficaste.

Então descobri
que nada é eterno,
e eu
sou arauto do amor...

Exilei de mim a dor.

Naúfrágio

Embalo-me em sorrisos
de lágrimas nascidos

num pranto estéril, amargo, insano
imoral, talvez!

Semeio aromas, sabores e sentires…
de tudo.

Ofereco-te o fogo sagaz
da nascente do riso
na pele morena
na carne viva
onde a cada dia me sentes
e me tens.

Dou-me

ao solo fértil
ao orvalho
e ao berço do ser
ainda e sempre
cru.


Alimento-te assim a vida
uma e outra vez
mascarando a derrota
de ti e de mim
náufragos de sentir perpétuo
prisioneiros do oco
e do vazio
sem água
e sem vida
nas palmas das mãos.

Amordaçada


Chegou-me um olhar
adiado no tempo

e o pêndulo parou.

A distância de perguntas e respostas
e palavras recusadas em silêncios
desenharam o que não soubeste mentir

Adivinhada foi a semente dos brilhos.

Eu nego
E tu não digas nada
Faz-te de louco também

Calemos as promessas
em olhos rasos de água
Matemos desejos
em viagens que o corpo não faz
Asseguremos que o instante de viver
é miragem
amordaçada
num oásis sem dádiva e sem destino.

Nada tenho no teu tempo.

É momento de largada
Sigo só, cega
no estéril deserto
de tudo e nada sermos

mexe-se o pêndulo
esconde-se o brilho
avança o tempo.

 
©2009 Amêndoa Amarga | by TNB