(Tenho que te dizer)
Inevitável
O processo não é novo: Uma mão, indiferente à primavera, abre sem hesitação com um só golpe o peito e arranca de uma só vez o coração, ressentido e lúcido. Coloca-o de seguida num pedestal de gelo, obrigando-o ao arrefecimento e ao luto. Inevitável. Para nos é tão inevitável a morte como foi o termos nascido.
"I am a dreamer but when I wake,
You can't break my spirit - it's my dreams you take"
Desalento

Esperei pelo cansaço do tempo
Pelo amainar do vento
Pelo serenar do mar…
Esperei sem lamento, sem alento, sem lutar
Esperei, fingindo não esperar.
Hoje, vencida, destapo a ferida
E pergunto por ti (sem gritar)
A música nada me diz da vida
Nem me canta a sorte…
Não sei quem te levou de nós
Nem o que ficou da morte
Entrego-me à saudade, vazia
À chama fria e ao sonho deserto
Estrada sem vida, sem cor, sem paixão
Neste querer sem alegria
Neste esperar sem ilusão.
À deriva
..Fecho os olhos. Tenho medo. Confesso-te, já não sei ser eu. Falta-me o sal. Falta-me a fúria. Falta-me a força. O gosto do riso. O cheiro a alecrim. E o teu ar de refugiado, despenteado, alucinado, que me desorientava... e me ensinava o caminho.
As noites hoje nascem sem alma porque os dias ficaram contigo… e a praia, morta aos meus pés… não consigo arrancá-la do desenho que pintámos a fogo e a sangue. Nem as grades e os véus e todas as metáforas da madrugada. Resta tudo neste registo. Tudo, menos tu.
As palavras mordem-me a alma. Nascem sem harmonia. Esgotam-se sem que consiga fazer delas meu coração. São como um rio sem foz para desaguar. Muita água à deriva e eu com tanta sede de ti. E os verbos não me saciam. E a vida não me preenche. Apenas me repete o vazio, eco indestrutível e cruel.
É verdade, apaguei-te, como teve que ser. Sem saber porquê, sem opção… Assim me perdi de mim.
Sobrevive a calma aparente e os gritos à porta fechada, vozes da minha tormenta quando o ar se vai.
Retalhos
.Inventa-se no amor as mãos
que se fazem mãos e se tocam
e nas palavras os sorrisos
que disfarçam o peso da ira
Inventa-se perdão para a incoerência
e mascaras para o egocentrismo
Inventa-se
que o baralho não é viciado
e que cada carta tem um valor
mesmo num jogo sem regras ou instruções
Numa estranha loucura
finge-se acreditar
no tanto que (não) se constrói
pelo vento que sopra sem alma
e inventa-se uma vez mais
formas e cores (felizes)
que magicamente seguram o tempo
num pouco mais de prazer
Inventam-se as horas e as despedidas
que a pouco e pouco se fazem reais
pelo retalhar do verbo ser
que transforma o sentir
numa imperfeita colcha de retalhos
que nem o corpo protege …
.
.
Luar
Flor de Lua
. 
E depois do adeus, choraste as rosas
sonhaste em campo aberto girassóis
nele encontraste a noite do deserto
a amarga amêndoa da razão
e a solidão
Lembraste então do amor
e do homem.
Ousaste em desalento
ofertar o ser
e o querer
foi quando esqueceste não prometer
foi quando prometeste não esquecer
(mas tudo é vazio, solidão, campo aberto)
E depois do adeus segui em frente
o luar ausente ainda e sempre em flor
desminto (me) o mel e o céu presente
nego (te) a alma transparente
tudo o que fui e deixei de ser
O riso, a voz e o corpo, ainda a tremer
leva-os o vento,
a passar, a correr
aqui não há solidão, campo aberto
há muito bebi o deserto
há tanto deixei de ser
E depois do amor morreram as rosas
estamos cá dentro, sós
porque a flor só tem uma vida
Porque o tempo não volta para nós.
Vôo
Não sei se algum dia te escrevi uma carta, hoje apetece-me fazê-lo. Não me perguntes porquê, talvez precise de algo que nunca tive ou apenas tente atraiçoar com suavidade a saudade dos teus lábios… é que hoje apertou-se-me o peito, confundido de saudade. Talvez tenha sido o nevoeiro sob a ponte que me trouxe a melancolia, o cheiro da tua pele e o som do teu riso. Consumo-me nas memórias de coisas tão simples como te chamar meu amor como fazia nos dias em que éramos felizes e percorríamos labirintos loucos ansiando pelos becos sem saída onde nos escondíamos do mundo e nos beijávamos como se não houvesse amanhã… (e não houve!) Nunca te amargura que o amanhã tenha morrido? (Por vezes dou por mim assim, a tentar adivinhar se ainda me sentes).
Passeei hoje pelo recanto do rio onde me disseste pela primeira vez que me amavas, as lágrimas caíram pelo meu rosto e desta vez não estavas para as beber. O vazio fez-me gritar o teu nome na ilusão que ouvirias… rio-me agora, um riso quase louco. Nunca mais ouvirás, pois não? O eco faz voar o grito mas as memórias ficaram para sempre pregadas num infinito só meu. Aquele de onde me fizeste acreditar ser estrela e onde me deixaste apagar, na solidão…
Lembras-te da última vez que falamos, do que me pediste? O impossível. Como poderia falar-te de amor sem te falar de mágoa? Existe amor assim? Não conheço, nunca conheci. Se o sabias porque não mo ensinaste? Tivemos tanto tempo gasto, um infinito que não agarrámos e até uma velha ponte que abandonamos ao tempo e ás intempéries…. Lembras-te do brilho das luzes da cidade que confundíamos com estrelas? Ali quase fomos o que poderíamos ter sido, quase fomos certeza e ainda assim não me ensinaste … a verdade que hoje me veste não vem raiada de luz nem é suave, morde-me a alma quase tanto quanto a saudade que fica e as perguntas morrem sem nascer. O refúgio é a sensatez do faz de conta que não é nada, abraço seguro em dias inquietos e as palavras, os verbos que narro na ânsia que nem tudo se perca. Nelas tudo te faço, te dou e te digo e nunca precisarei fingir. É aqui que te encontro, sem impossíveis. Onde ainda sou feliz, voando em ti. Beijo suave.
Interrogação

Está gasto o tempo

Perdição
quando a noite atingiu o fundo
e o vento perdeu a razão.
De repente fiquei fria
nem tu me tocaste
nem o mundo me alcançou
aos verdes campos
onde o betão armado
mão do homem
se desfez no nada
Fui da tua procura ao meu encontro
em solo fértil de luz
e do caos renasci pintura carmesim
.
Não era bom que a história fosse assim?
Este círculo é viciado
a terra tem o teu nome
e o vermelho que me cobre
é sangue do teu ser
.
Anulam-se-me os passos
no vazio que te pressinto
e nele te abraço
em contradição
quietude das palavras
perdição
.
Teoria do fim
.
.
.
.
.
Tenho um último pedido a fazer-te
antes que vás.
É que, depois de tudo
é suposto que saiba viver sem ti.
Mas eu não sei fazê-lo
falta aprender a suportar a ausência
e o vazio da tua saída.
Talvez não saiba como largar os cordões ao sonho
pensei que não chegaria o dia de o fazer.
Errei.
Era suposto estar preparada para o fim inevitável
que ajudei a nascer
ao quebrar o feitiço da entrega e partilha
ao abrir a porta aos espectros
ao levantar o véu da ignorância que não quis mais usar…
Afinal já estávamos sós
ao tempo que estamos sós!
Mas a cama estava quente
a roupa nas gavetas fazia-me companhia
e tantas foram as vezes que apenas a elas tive para abraçar
num jogo tolo de sonhadora
para sentir o teu aroma
o perfume do amor…
Não, não quero que fiques, não faz sentido
o vento já há muito desfez a calmaria
vivi agarrada a algo desfeito na erosão dos dias
e das noites de solidão, contigo ao meu lado…
Basta agora
aprendo a viver sem ti
como já o sabia fazer...
Apenas não sei onde estás
sei onde te tenho.
.
.
.
Não!
aguarda que chegue o tempo da lucidez
afinal
de que nos serve a chuva?
Basta-te no leito de pétalas
porque não te posso roubar a solidão
(entende)
não tenho como te acompanhar
no silêncio dos moinhos,
ou nos afectos deste jogo de contrastes.
Então sente-me apenas no espaço das palavras
proferidas
a cada palmo de alcatrão derrotado,
na suavidade do vermelho rubro
do anoitecer…
Sente-me
Este tempo não é nosso.
Sem coração

e não digas nada
ouve apenas
o murmúrio prisioneiro
que te implora
que não fiques em mim.
Adivinha na raiz da noite
as palavras acorrentadas
esquecidas
submersas na verdade
que sou
e que tu não pressentes
nem em sonhos
Deixa que sejam só meus
os lânguidos cansaços da saudade
que o manto estrelado da noite
ainda seduz
Tira a mão devagarinho
do meu peito,
solta o laço
que te prende
à eternidade do meu ser
Vai
e deixa ficar apenas
os pedaços desfeitos e rasgados
de um corpo cheio de nada
que já não tem coração.









