Contrariedades...






Hoje alguém me falou do tempo escasso e da morte certa e eu lembrei-me de ti, nascente de vida onde rebentam os sonhos e os gestos tomam lugar e se fazem eternos em mim. Fazer o quê se sempre tive esta mania de contrariar?



Sem chão





Sempre pensei que fosse simples. Tu e eu, tão perto e tão longe num cúmplice e sereno mundo comum. Olhando para trás, já não me lembro se alguma vez te sonhei. Talvez, não sei, se aconteceu devo ter achado tão absurdo que apaguei da memória. Só que um dia os teus olhos pararam nos meus e já não couberam… inesperadamente roubaste-me o tempo e razão como se os anos não contassem, como se as circunstâncias não pesassem. E o chão perdeu-se debaixo dos meus pés… Calaste-me o sorriso e as certezas com o que vi dentro de ti e da minha pele, virgem de um só toque teu, de um só afecto, nasceu o desejo brutal de me afogar nos teus beijos. Ninguém reparou. Só nós, em silêncio, soubemos que sim…



Piano



(Ah!...o piano…)


As luzes, baixas

o aroma, suave

o paladar, perfeito.

O murmúrio das vozes,

devoradas

pelo piano

onde alguém toca num solo

a imortalidade…



Lá fora a noite

monumental,

perfeita!

Na água, o mundo

Iluminado,

dividido,

desigual.


E aqui,

deste lado do espelho

a sombra e o mate

da busca incessante de amor.


A loucura de Quixote,

tão presente

na espada que pende

das minhas mãos amargas

e feridas,

exaustas

e repletas de gigantes

esboçados

desejados

e nunca

nunca vencidos!...


Dívida




Houve um tempo

em que o teu olhar

Me fazia perder o controlo.

Um gesto teu… eu morria por um gesto teu,

Por uma parcela do teu mundo.

Hoje, olho-te e lembro

As lágrimas que caíram pelo meu rosto

Ao longo de um tempo sem fim

E que as que não enxugaste com os teus lábios

Enxugou-mas o vento frio da procura,

no vazio.

Sim, houve um tempo, por muito tempo

Em que eu perdi o controlo, voei

Sem me importar para onde ia

Segui-te pelo caminho do medo e morte

Esperando sobreviver, a teu lado

Tudo o que importava era ter-te,

ser-te,

amar-te.

Não, não me olhes assim agora, não repitas

Nem ouses fazê-lo, é tarde,

Tão tarde que ceguei os sonhos.

Hoje sei que apenas vivemos

Uma fracção de segundo da uma eternidade

Que nem chegou a pertencer-nos

Sim, é verdade, ainda estou aqui

Mas não é por ti

É por mim, é pelo tempo, pela vida

Que ainda me deve uma estrela…



Primavera


(uma vez mais)



transportaste

nos teus lábios

o doce paladar

da certeza e da paz

e a verdade

no teu abraço

tão forte

que me recorda

que tudo é tão simples

no teu mundo

sem fronteiras,

tão perfeito,

tão real,

tão nosso.


Perdoa-me

meu amor

o tanto que me esqueço

(uma e outra e outra vez)

de que é no teu peito que vive

a minha Primavera.




 
©2009 Amêndoa Amarga | by TNB