Silêncio (por favor)

Quero ouvir o som do amor




Não, não desse amor que grita e vibra e sonha e sofre. Daquele outro que de tão nosso, no oposto dos dias esquecemos de recordar que existe… mas que sabemos ser espírito e ar, motor e essência de nós enquanto gente e ser. Onde vivemos o sempre. Sem querer e sem pensar, sem perguntar ou duvidar. Quero ouvir o amor que já não chora. Que não se revolta. O que já não dói do tanto que nos pertence. Do que em nós se fundiu, entranhou, dissolveu, como sangue e carne e cheiro e pão. O que sobra no limiar da morte, quando já não se mente. Quando já não se finge nem se nasce. Apenas se é, no som.


Silêncio (peço por favor)

Preciso desesperadamente ouvir o som do amor

Quero saber-me viva



Tu sabes (mas...)

Inventa-me


Foi uma noite longa
a madrugada dorme
ao contrário das emoções, despertas pela contradição
do que fui e ainda sou, sem ser
do que quero sem entender
dos sonhos ilegíveis, impossíveis de verbalizar
e até de compreender.
Caprichosas estão as emoções
tão incontroláveis
que ainda vou vacilar um pouco nas palavras,
que teimam em permanecer
e arriscar com elas num jogo de sentires
que amordaça e simultaneamente liberta
como o amor
e a ira

Nelas vou pedir-te que me inventes esta noite
lentamente, que me desates dos mil pedaços
perdidos por aí, sem chão
Que apagues num abraço, os traços que marcam
sob os meus olhos, o alvorecer
E que me beijes até me faltar o mundo.
Deita-me
na maciez do teu leito de linho
ensina-me o caminho sagrado do teu universo
e entrega-me num sopro divino
o meu verdadeiro poema






Não me perguntes quem sou
Diz-me só que te pertenço




Para ti, minha deusa de Maio


Tu sabes o quanto gosto de recordar…e de bailar contigo, naquela dança bem antiga que é tão nossa. Rio-me. O tempo passa, a água em imparável agitação, a vida em constante mutação. Mas nós ainda estamos aqui. E estaremos, eu sei, porque foi Fátima que nos abençoou… e a chuva, rs. A nossa famosa chuva, no santuário, junto ao mar e no moinho. A chuva na cidade, em casa, nos veleiros... Chovia naquela nossa cerimónia? Não sei, acho que sim. São já tantas memórias …como este texto, lembras-te? Recordá-lo hoje, é o teu presente de aniversário, espero que gostes.






Ah…dão chuva para hoje.


"O teu Maio"



“Escreve mulher ! É uma ordem! E dá a conhecer as tuas letras ao Homem que lê!”



Passou da hora minha Deusa. Não sabes tu que as palavras têm tempo e vida própria? Oh, se tudo fosse da forma que um dia sonhei!... A cada meia-noite eu pegaria nas letras como se de um filho se tratassem e por magia transformá-las-ia num só verbo, naquele verbo sereno da verdade absoluta que não se traduz.


Hoje, se o tempo não fosse subjectivo, as palavras surgiriam sem pontos de interrogação, não importaria o sentido nem que alguém o encontrasse para além de mim. Mas no meu relógio de vento já não habitam as palavras, já não mato na escrita breves instantes que não o são, os mil fragmentos coloridos de cristal, as pedras de sal, a meiguice do ser, do sentir, do viver, hoje não vão além de um sopro de sonhos sepultados, esquecida que foi a ousadia de seguir a vida em contramão, ultrapassada que foi a necessidade de lutar contra moinhos de vento.


Como eu queria minha Deusa ainda assim conseguir falar de quimeras através da magia de um teclado que tantas e tantas vezes voou debaixo dos meus dedos sem que dele desse conta no devaneio de tantos sabores sentidos, repletos de odores e sabores exóticos e amordaçados. Sim, faz-me falta o bailado dos dedos e foi pela saudade dele e por ti, por nós as duas e por aquela dança louca que um dia nos prometemos que aqui voltei esta noite, às palavras, ainda que sem magia, numa talvez vã tentativa de matar uma vez mais sentires contraditórios inspirados numa madrugada morna de Maio. Do teu Maio, deste mesmo onde vieste buscar-me!...
(importará quando foi escrito?)
Um beijo para ti

 
©2009 Amêndoa Amarga | by TNB