(Tenho que te dizer)
Adivinhação
porque nem eu sei
de onde nasce o verbo
que germina discordante a cada dia.
Se vem de ti
ou dos fantasmas da minha demência
que se libertam e falam por mim
São somente promessas
sem passado nem futuro
e tantas vezes sem razão
vereda circular de desditas
onde nem um só gesto de ternura
fica por acontecer
e onde sou tudo o que desejo ser
Ouve, não queiras saber quem sou
Eu sou como o vento
Nem sempre a noite
o tempo
ou a morte
Por vezes sou apenas o relento
Barco sem timão
vento que vai e volta sem destino
sombra da lua entorpecida
Embriagada em delírios sem norte.
Não queiras saber quem sou
terias primeiro que saber onde me encontrar
e eu
nem sempre estou
onde me consegues procurar…
O que houve...
Pensando bem, não houve tempo. Não que as horas alguma vez fossem essenciais. Nem os dias, ou as noites. Na verdade, nunca houve tempo, bastaram instantes para te amar. Mas tu chegaste já o sol tinha adormecido de cansaço… e nem a lua, a tua, a nossa lua, resistiu à solidão. Vieste tão tarde meu amor. Porque demoraste tanto? Gostaria de ter-te esperado. Ter-te sido. Sermos vento e não lamento. Não, não houve tempo, fomos tudo menos tempo. Fomos Inverno, Inferno, Caos. Fomos atrito, delito e canção. Urze, alfazema e açafrão. Flor de Lua e Pedras de Pão.
Metáfora de/para ti
Ando há tempos para te contar e não sei como fazê-lo. Mas tenho que o fazer para desabitar a solidão. Encontrar as palavras, as nossas palavras perdidas no tempo é tudo o que não me tem acontecido. Será que tu sabes o que me tem acontecido? Tu, nessa dimensão, ainda és nós? Ainda sentes? Ainda vês? Ainda estás? Prometeste amar-me eternamente, agora diz-me, (preciso que me contes, se calhar não sou eu que tenho que te contar mas sim de te ouvir e é por isso que as palavras não nascem. Andará tudo trocado?) a eternidade existe ou o amor também morre e se desfaz, como a carne? Corpo, alma e coração, dizias, agora conta-me, onde está a tua alma? Na terra, junto dos teus melhores sapatos? Ou aqui, comigo? Por vezes sinto-te. Não digo sinto-te assim, literalmente. Não és sombra nem vento, nem sequer o canto daquele nosso rouxinol. Ainda não enlouqueci. Se calhar vais-te rir se te disser que te procurei na sombra de um velho castanheiro. Não brinques, quase vejo esses olhos muito abertos a reinar comigo. Vá lá, agora também me rio, sou tonta, sempre fui eu sei, mas acredita que chorei por não te encontrar. Às vezes choro por ti, às vezes não. Às vezes esqueço-me que já não és nem estás. Esqueço-me de ti. Às vezes esqueço-me até de mim. Mas num outro dia lembrei-me e fui esperar-te ao comboio das 4, aquele que perdemos a conta das vezes que deixamos partir sem entrarmos. Desta vez entrei, juro-te que entrei e quase te vi, eras tão verdade que cheguei mesmo a abraçar-te e nesse abraço o encontro da saudade e da dor, da alegria e da fome. Deste-me outra vez aquele beijo na testa. E eu gostei outra vez, tanto do beijo como de ti. Não eras bem tu, eu sei, mas parecias real. Eras assim, como a metáfora que sempre nos fez. Soube-me bem. Soubeste-me bem. Sabes-me bem. Saberás sempre bem. Um dia conto-te o quanto me sabes bem. Quando encontrar as palavras.
Cuida de ti...
Palavras...
Eterno
Inevitável
O processo não é novo: Uma mão, indiferente à primavera, abre sem hesitação com um só golpe o peito e arranca de uma só vez o coração, ressentido e lúcido. Coloca-o de seguida num pedestal de gelo, obrigando-o ao arrefecimento e ao luto. Inevitável. Para nos é tão inevitável a morte como foi o termos nascido.
"I am a dreamer but when I wake,
You can't break my spirit - it's my dreams you take"
Sem chão

Sempre pensei que fosse simples. Tu e eu, tão perto e tão longe num cúmplice e sereno mundo comum. Olhando para trás, já não me lembro se alguma vez te sonhei. Talvez, não sei, se aconteceu devo ter achado tão absurdo que apaguei da memória. Só que um dia os teus olhos pararam nos meus e já não couberam… inesperadamente roubaste-me o tempo e razão como se os anos não contassem, como se as circunstâncias não pesassem. E o chão perdeu-se debaixo dos meus pés… Calaste-me o sorriso e as certezas com o que vi dentro de ti e da minha pele, virgem de um só toque teu, de um só afecto, nasceu o desejo brutal de me afogar nos teus beijos. Ninguém reparou. Só nós, em silêncio, soubemos que sim…
Piano
As luzes, baixas
o aroma, suave
o paladar, perfeito.
O murmúrio das vozes,
devoradas
pelo piano
onde alguém toca num solo
a imortalidade…

Lá fora a noite
monumental,
perfeita!
Na água, o mundo
Iluminado,
dividido,
desigual.
E aqui,
deste lado do espelho
a sombra e o mate
da busca incessante de amor.
A loucura de Quixote,
tão presente
na espada que pende
das minhas mãos amargas
e feridas,
exaustas
e repletas de gigantes
esboçados
desejados
e nunca
nunca vencidos!...
Dívida

Houve um tempo
em que o teu olhar
Me fazia perder o controlo.
Um gesto teu… eu morria por um gesto teu,
Por uma parcela do teu mundo.
Hoje, olho-te e lembro
As lágrimas que caíram pelo meu rosto
Ao longo de um tempo sem fim
E que as que não enxugaste com os teus lábios
Enxugou-mas o vento frio da procura,
no vazio.
Sim, houve um tempo, por muito tempo
Em que eu perdi o controlo, voei
Sem me importar para onde ia
Segui-te pelo caminho do medo e morte
Esperando sobreviver, a teu lado
Tudo o que importava era ter-te,
ser-te,
amar-te.
Não, não me olhes assim agora, não repitas
Nem ouses fazê-lo, é tarde,
Tão tarde que ceguei os sonhos.
Hoje sei que apenas vivemos
Uma fracção de segundo da uma eternidade
Que nem chegou a pertencer-nos
Sim, é verdade, ainda estou aqui
Mas não é por ti
É por mim, é pelo tempo, pela vida
Que ainda me deve uma estrela…
Primavera

transportaste
nos teus lábios
o doce paladar
da certeza e da paz
e a verdade
no teu abraço
tão forte
que me recorda
que tudo é tão simples
no teu mundo
sem fronteiras,
tão perfeito,
tão real,
tão nosso.
Perdoa-me
meu amor
o tanto que me esqueço
(uma e outra e outra vez)
de que é no teu peito que vive
a minha Primavera.
(Porquê ?)
Pintura abstracta

Nós...










